“Muitos tempos há que precisamos entender: o que os relógios marcam - e são tantos os relógios, o que o sol nos impõe a nos ver girar dia após dia ao seu redor, o tempo das nossas realizações e dos nossos aprendizados, dos plantios e das colheitas, mas, de todos o que mais nos aflige é o tempo de nossas vidas. Aflige porque é marcado pelas emoções, pelo bater descompassado dos corações, cada um a buscar no imo da alma a melhor forma de ter dele a medida que lhe é justa. O tempo marca que já se passaram dias, meses, anos. Já o tempo que os nossos corações marcam não teve tempo de se contar e hoje, o que pulsa em nosso peito é tão intenso que nos surpreende não saber se foi longo ou foi ligeiro, até porque isto agora não tem importância. Foi bom, foi muito bom. E isto sim, é o que importa.
Diz a música que “chegar e partir são dois lados de uma mesma viagem” e isto é muito verdadeiro. O sentimento é oposto, mas o processo é o mesmo. A gente se prepara, se fortalece, busca o conhecimento e a ajuda de quem quer que se ofereça até chegar a um ponto em que se acha pronto, mas, quando o trem para na estação e troca seus passageiros é que percebemos o sentido real desse momento. O chão que compactamos tão bem se abre à nossa frente. Primeiro é o torpor do indefinido, do indescritível, daquela emoção que a palavra não traduz. Vem a alegria, o contentamento que fazemos questão de compartilhar com um orgulho danado, a felicidade até. Vêm os momentos de angustia, o choro que temos que fazer parar e não sabemos como; todas as primeiras experiencias que futuramente nos trarão momentos de grande alegria, mas que agora é o ato terrível que temos a executar com as nossas mãos todas esquerdas; o futuro, sim, há o futuro sobre o qual fizemos projeções lindas. Este futuro estava ali à nossa frente a atravancar nosso passo seguinte. O presente estava complicado. Haviam problemas internacionais que nos impediam de aproveitar o mundo ao nosso redor, pois não sabiamos se, ao voltarmos a nossa realidade, conseguiriamos sobreviver nela novamente. Mas, algumas coisas eram diferentes. Nas manhãs de domingo o Airton Senna, veja só, ganhava corridas e nos fazia esquecer as notícias do sábado à noite, dando conta (se é que era possível fazer conta) dos últimos números de uma inflação horrível que se sentava em nossa mesa e dormia em nossa cama.
Mas o tempo, sempre o tempo, caminhou sobre tudo aquilo reafirmando o ditado popular que diz que “o que é do homem o bicho não come”. Aprendemos que o futuro seria resolvido entre aqueles a quem ele pertencia: Você e Deus. Que a nós caberia apenas o trabalho menor, nem por isto menos digno, árduo e prazeroso, de prover seu presente com nosso carinho, nossa responsabilidade, o empenho em mostrar as coisas que havíamos aprendido antes que você, o dividir suas perdas para torná-las menos dolorosas com o cuidado de não interferir nelas, o absorver os impactos que a visão crua do mundo revela até que você fosse capaz de resolvê-los sozinha.
Quanto a isso, recebemos muitas e grandes compensações. Ninguém sabe o quanto vale cada momento, cada desenho, cada brincadeira que só você entendia. Cada bronca que você nos dava por coisas que hoje você faz muito pior (risos).É muita coisa para lembrar, é muita saudade para sentir. Não a saudade de um lugar ou de um amigo que se pode ver de novo, de uma música que a qualquer hora será tocada num flash-back, mas, a saudade daquelas que a gente não quer – e não pode – matar, porque é saudade do que foi e não mais será.
A partir de agora, nos iremos apenas acompanhar você no seu longo caminho. Repare que o verbo usado é acompanhar e não guiar. Sim, apesar de desejarmos manter você sempre junto a nós, como já dissemos, seu destino pertence apenas a você e a Ele.
Nunca se esqueça de onde você veio. Mas não justifique seu erros com esses acontecimentos. Seja forte, corajosa, saiba o momento de ser mais ou menos. Se não souber, continuaremos aqui para acompanha-la.
Faça sua vida valer a pena.”
(Esse texto foi escrito pelo meu pai. É uma carta pessoal e não está na integra aqui. Mas como significa muito mais do que aparenta, decidi dividí-la. =D)



